Transformação de muitos atletas olímpicos ocorre na escola

Transformação de muitos atletas olímpicos ocorre na escola

Maria Alice Zimmermann, doutoranda em Educação pela FEUSP, integra o Grupo de Estudos Olímpicos

Quando assistimos à vitória de um atleta em uma edição olímpica pouco sabemos sobre o processo para se chegar àquele resultado.

Muitos desses atletas olímpicos, alguns medalhistas, narram essa transformação que ocorre na escola, durante as aulas de educação física, devido ao olhar atento de um professor que o chamou para compor a equipe, ou mesmo lhe proporcionou experimentar uma nova modalidade.

Essa relação que é trazida pelos atletas se apresenta como uma relação de mestre e discípulo. O professor é citado não apenas por ter “descoberto seu talento”, mas principalmente por ajudá-lo a entender esse chamado de vida que o esporte lhe convidava.

Nesse encontro, o professor é alguém que transpõe o seu papel, com olhar para além das habilidades necessárias que o destina a se tornar atleta. Um encontro de raridades. Um professor que se preocupa com a potencialidade desse aluno e um aluno que apresenta habilidade de maneira excepcional.

As pessoas que tiveram a oportunidade de passar pela escola têm sempre uma boa história para contar sobre um professor que marcou uma época, uma passagem, boas lembranças. No caso de alguns atletas olímpicos brasileiros, seus professores são lembrados e, mesmo sem que tenha sido perguntado, são citados ao longo de suas narrativas.

Por isso esses professores são considerados inesquecíveis. Lembrados com carinho por quem foi descoberto, essa figura heroica se assemelha ao mito de Quíron. Expressão simbólica do mestre, se preocupava com os cuidados do corpo, do psíquico e da espiritualidade de seus discípulos.

A relação entre professor e aluno é permeada de cuidados e olhares de atenção para proporcionar um bom desenvolvimento do estudante, que caminha para transformá-lo no escritor de sua própria história.

Os ciclos olímpicos trazem apontamentos para a escola como responsável por descobrir atletas. E o questionamento pertinente é se isso seria possível. Afinal, no modelo esportivo vigente no país, em que os clubes são a porta de entrada para o esporte de rendimento, não é tarefa da escola assumir mais essa responsabilidade.

Em várias cidades, ela é o único lugar onde as crianças têm contato com o esporte formal, onde podem praticá-lo e participar de campeonatos, onde são encantadas por ele. O funil começa aí. Muitos estudantes nem sequer chegam aos clubes, por falta de condições de acesso.

Na cidade de São Paulo, coordenei por anos uma das principais competições escolares, que anualmente contava com cerca de 100 mil participações em 14 modalidades. Digo que existe uma distância abissal nesses encaminhamentos para os clubes. Daí a necessidade de se pensar num sistema esportivo que considere a base do esporte e o acesso a ele.

Se existe a possibilidade de o esporte começar na escola, é preciso entender que a escola tem passado por transformações, assim como o entendimento da iniciação esportiva nas suas quadras.

Houve um momento da história no qual o esporte era tido como sinônimo de educação física. Na atualidade, foi superado o entendimento da prática esportiva como a repetição do gesto pelo gesto. Percebe-se que o esporte propicia o desenvolvimento humano e este contribui para o desenvolvimento de uma sociedade que demanda mais respeito, amizade e sonhos de igualdade.

Por isso, a escola e o esporte têm na figura do professor o agente que permite extrapolar a convivência de seus pares que atuam dentro das quatro linhas das quadras, para ganhar outros contornos de realização.

Aproveito para homenagear Luis Alberto de Oliveira, técnico do campeão olímpico Joaquim Cruz. Então professor de educação física do ensino fundamental do Sesi de Taguatinga, Distrito Federal, viu no menino franzino a potência de alguém diferenciado e acreditou poder fazer a diferença.

Que os mestres sejam tratado com o devido respeito e carinho.

Fonte – Folha de São Paulo

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