É possível manter o Enem em meio à pandemia?

É possível manter o Enem em meio à pandemia?

Em meio a polêmicas sobre o cronograma do exame durante a pandemia do novo Coronavírus no Brasil, o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2020 abriu inscrições nesta segunda-feira, 11/05, segundo programação do Inep, instituto ligado ao MEC (Ministério da Educação) responsável pela prova.

A insistência do governo Jair Bolsonaro em manter as datas do Enem, apesar da pandemia de Coronavírus e do fechamento de escolas, vai na contramão do ocorre no mundo.

A maioria dos países adiou exames de acesso à universidade, como é o caso do Enem. Só 5 países, entre 19 com provas similares, mantiveram o cronograma, segundo levantamento do Instituto Unibanco com nações de todos os continentes.

“A crise em que o mundo vive em consequência da pandemia favorece a seleção que mais agrada ao atual governo, de filtrar a entrada para aqueles que estão em posição mais favorável. Essa decisão do MEC de não adiar o Enem prejudica o povo mais pobre, tornando mais distante a possibilidade de um futuro melhor, com mais oportunidades”, diz Adércia dos Santos, do Sinpro Itajaí e da Contee, em artigo. “O governo, ao contrário do que a campanha anuncia, ceifa uma geração de novos estudantes que vê nos estudos a possibilidade de emancipação econômica e social”.

Na TV, propaganda do Enem: como nos tempos da Ditadura?

A nova campanha do Exame Nacional do Ensino Médio — Enem 2020 —, lançada em 28 de abril pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão do Ministério da Educação (MEC), lembra a forma como se fazia televisão no período da Ditadura Militar (1964-1985).

Durante, sobretudo, os anos de chumbo, depois que foi instituído o Ato Institucional n. 5 (AI-5), em 1968, até o final do governo do general Emílio Garrastazu Médici, em 1974, o Brasil aparecia na televisão como uma terra dos sonhos, enquanto, no mundo real, torturas e corpos enterrados em valas clandestinas eram o modus operandi sobre os críticos do governo, aqueles que lutavam pela volta da democracia e pelo direito à liberdade de expressão.

Médici chegou a declarar em 22 de março de 1973: “sinto-me feliz, todas as noites, quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho”.

Na versão atual do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), não seriam mais os jornais, e muito menos o noticiário da Globo, que o levariam a dormir sossegadamente, mas as campanhas de seu próprio governo. Enquanto o mundo vive uma crise humanitária em consequência da pandemia causada pelo Coronavírus, a nova campanha do MEC explora a ideia de que “a vida não pode parar”, ao estilo de um discurso de motivação, com frases como “dias melhores virão” e um sorriso estampado no rosto.

Os atores são jovens, com aparência de “bem nascidos”, em seus quartos super equipados: iPhones de última geração, tripé de apoio para gravações, MacBook, mesa de estudos, estante com livros, uma ou mais bandeirinhas do Brasil no cenário, faltando apenas o símbolo da CBF para demarcar bem o público que poderá estudar em casa e assim se proteger do perigo iminente. Uma realidade bem diferente da maioria dos brasileiros.

Ao seu público, a proteção; aos outros, as valas comuns, ou melhor, o sacrifício de não participar do Enem e estudar, já que em muitos lares faltam condições materiais, como espaço físico independente, internet ou velocidade suficiente para as demandas de um ensino a distância.

Na campanha, não há menção à crise, seja ela econômica ou humanitária. O único vestígio é a fala “a vida não pode parar”, que deixa subentendido que tem algo estranho no momento, mas funciona, ao contrário, como uma convocação ao trabalho e à volta à normalidade da vida. Isso fica mais notório com a primeira fala:

“E se uma geração de novos profissionais fosse perdida? Médicos, enfermeiros, engenheiros, professores. Seria o melhor para o nosso país? A vida não pode parar”.O governo tenta sustentar a narrativa de que se faz muito barulho por nada, já que, para o presidente, a pandemia trata-se de uma “gripezinha”, apesar de mais de 100 mil infectados e quase 10 mil mortos.

Para concluir o artigo de Adércia Bezerra Hostin dos Santos, clique aqui.

Fonte: Fepesp

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