Notas altas significam boa educação?


Diane Ravitch, pesquisadora da Universidade de Nova York e ex-secretaria adjunta de educação dos Estados Unidos na gestão Bush pai, mudou de opinião. Após anos defendendo um sistema educacional baseado em metas, aplicação de testes nacionais, responsabilização do professor pelo desempenho do aluno e fechamento de escolas mal avaliadas, a educadora chegou à conclusão que este apenas tem formado jovens aptos a responderem testes.

A crítica ao atual sistema antes defendido é feita no livro The Death and Life of the Great American School System (a morte e a vida do grande sistema escolar americano), ainda inédito no Brasil, e tem gerado acalorados debates nos Estados Unidos.

E este não é assunto à parte dos brasileiros, visto que o sistema que imprimiu noções de gestão empresarial ao ensino estadunidense, também serviu de inspiração ao Brasil.

Segundo Diane em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, em 02/08/10, os estudantes de seu país estão deixando de ter um sólido currículo ministrado, cujas disciplinas devem ser bastante definidas, porque a maior parte do tempo é gasto em exercícios voltados para o desempenho nos testes nacionais. Na sua avaliação, estes são reducionistas em relação aos conteúdos exigidos e muitas vezes têm seus resultados fraudados.

O que a educadora deseja evidenciar é a falácia da crença de que bons resultados em testes necessariamente significam boa educação. Antes de se buscar uma educação de qualidade, é preciso entender o que é isso.

Para Diane, avaliações padronizadas "dão uma fotografia instantânea do desempenho". Elas podem ser extremamente úteis como informação, mas devem ser usados com sabedoria, porque quando as metas são altas, como no caso estadunidense, e involvem recompensas e punições, os professores buscarão contornar isso. O que levará às horas gastas, não no desenvolvimento do conteúdo indicado para cada etapa, mas no treino para os testes.

Em relação à avaliação dos professores e conseqüente punição ou recompensa de acordo com o desempenho, Diane defende que estes sejam testados quando ingressam na carreira e posteriormente, avaliados periodicamente por seus supervisores. Estes precisam ser administradores experientes, qualificados, que também sejam professores, para ajudarem docentes com dificuldades.

No entanto, apesar do todo o debate que tem se dado em torno disto, Diane, em entrevista ao canal Democracy Now!, acusou o governo Obama de continuar na mesma direção iniciada por seus antecessores e mesmo ir mais a fundo em algumas das aplicações mais perversas deste atual sistema educacional.

O governo tem pressionado os estados a avaliarem seus professores a partir da pontuação obtida por seus alunos, o que, segundo Diane, é uma mensuração extremamente injusta visto que estudantes de comunidades mais pobres, por conta de suas conhecidas dificuldades extra-sala de aula, obtém resultados inferiores aos alunos de regiões mais abastadas.

A educadora cita escolas que, por conta disso, estão sendo fechadas ou privatizadas, como aconteceu este ano em Rhode Island, onde o único colégio de uma comunidade extremamente pobre teve todos seus professores demitidos e foi desativada. O resultado disso, segundo Diane, será a devastação da educação pública estadunidense nos próximos anos.

No entanto, o governo democrata continua apoiando competições escolares como a "Race to the Top", que no início de março deste ano anunciou seus finalistas de diversos estados estadunidenses e distribui até 4,35 billhões de dólares aos vencedores. Segundo o jornal The Washington Post, todos os estados finalistas, excetos os de Delaware e da Carolina do Sul, receberam ajuda financeira da fundação Bill e Melinda Gates, para se prepararem para competição.

Segundo Diane, uma das condições levada em consideração no "Race to the Top", são os estados serem comprometidos com a privatização de suas escolas, o que eles chamam de "charter schools".

A lição que o Brasil pode tirar do exemplo estadunidense, é de que o foco deve ser sempre na melhoria da educação e não no aumento das pontuações em provas. Para Diane, precisamos nos preocupar com as necessidades dos estudantes e não em quem deve ser punido, para que eles aproveitem a educação.


Publicado em: 14/07/2010 - 10:28 - Última modificação: 14/01/2011 - 12:08

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