A falácia da gestão meritocrática


No jornal Folha de S. Paulo desta segunda-feira (10/01/2011), o caderno Saber se dedica a traçar um panorama da decadência da qualidade da educação de nosso vizinho, a Argentina. Tal é evidenciado por exames internacionais como o PISA, programa que avalia o desempenho de jovens de 15 anos em leitura, matemática e ciências.

O país, que já foi o primeiro em qualidade da educação na América Latina e esteve entre os primeiros do mundo, agora, de acordo com o PISA de 2009, cujos resultados foram divulgados no final do ano passado, se encontra na 7º posição entre os países da região. A Argentina está abaixo do Brasil e muito aquém da média da OCDE, organização que aplica a avaliação no mundo todo.

A reportagem destaca a preocupação dos especialistas, que acreditam que o país esteja vivendo uma "crise generalizada no sistema educacional".  Isto, apesar da porcentagem do PIB destinada à educação ter aumentado nos últimos anos, de 4,5% a 6,5%, a maior da região.

Para tentar obter respostas para este fenômeno vizinho, o repórter Gustavo Hennemann, que assina a primeira reportagem do caderno, "Crise na Vizinhança", busca ouvir especialistas argentinos, com especial destaque para Gustavo Iaeis, diretor do Centro de Estudos em Políticas Públicas.

Iaeis é enfático ao afirmar que o problema argentino está na falta de uma gestão meritocrática da educação, em que testes nacionais sejam constantemente aplicados e os professores cujos alunos não obtiverem bons resultados sejam punidos. O diretor cita como exemplo o vizinho Chile, onde: "o financiamento é regulado pela demanda. Escolas que perdem alunos sofrem cortes, e aquelas que aumentam o número de matrículas são compensadas."

A falta de transparência é identificada por Iaeis também como um fator desestabilizador, pois não se sabe quais escolas são melhores ou piores. Os próprios professores e alunos desconhecem a sua situação.

A melhor solução?

A falta de métodos avaliatórios que indiquem quem está bem ou mal e que, desta forma, auxiliem na adoção de alternativas para quem não se saiu bem, são importantes e necessários, entretanto a fala de Gustavo Iaeis vai contra o que é defendido hoje por Diane Ravitch. Como secretária-adjunta de educação dos EUA na gestão Bush pai, Ravitch defendeu durante anos a gestão da educação focada na meritocracia, mas atualmente alerta para os perigos deste tipo de política, ainda seguida em seu país.

Segundo a também a pesquisadora da Universidade de Nova Iorque, em seu livro The Death and Life of the Great American School System (A Morte e a Vida do Grande Sistema Educacional Americano, ainda inédito no Brasil), testes nacionais dão apenas uma fotografia instantânea do desempenho escolar e não podem ser usados como únicos parâmetros para adoção de medidas. Além disso, a pesquisadora afirma que quando um sistema se baseia em ganhos e punições, os professores buscarão um jeito de driblas as avaliações.

Para Ravitch é extremamente injusto se fecharem escolas com desempenho ruim nos testes nacionais, como ocorre nos Estados Unidos, pois muitas destas estão localizadas em localidades pobres, onde a oferta de serviços básicos e qualidade de vida são precários.

Entretanto, apenas ao final da reportagem, em um exíguo espaço, o repórter da Folha de S. Paulo cita a opinião de Jason Beech, da Universidade de San Andrés, para quem a crise educacional na Argentina está diretamente ligada ao aumento da desigualdade social, com a fuga da elite para o setor privado.

É perigoso utilizar a política de gestão meritocrática na educação, adotada sobretudo nos Estados Unidos já há vários anos, quando analisamos o resultado desta no desempenho do país no PISA. Os jovens estadunidenses se encontram na 17º posição no ranking mundial, enquanto o vizinho Canadá está na 6º.

Tal resultado fez Barack Obama comparar o fato com o lançamento do foguete Sputnik pelos russos, na década de 50, o que, segundo o presidente, instigou o país e o fez se lançar numa acirrada corrida espacial para se chegar à frente nos avanços na área. Agora para ele, o mesmo deve acontecer para que os EUA ultrapassem não somente o seu vizinho, mas volte também  a ocupar o topo do ranking das avaliações educacionais internacionais.

Para Kumar Singam, em artigo para o site examiner.com de Washington, os EUA devem observar como a política educacional é conduzida no Canadá e utilizá-la com inspiração para o país. Segundo Singam, lá em 2000 o governo lançou o Youth Transition Survey (algo como "pesquisa de transição da juventude"), e desde então mais de 30 mil jovens que participaram do PISA nesse ano, tem sido entrevistados a cada 2. Uma forma eficiência de se avaliar o desempenho e evolução dos estudantes e tomar atitudes a partir das análises obtidas.

Enquanto isso nas escolas públicas de Montgomery, em Maryland, segunda uma professora que não quis se identificar, há comitês incumbidos de identificar uma minoria de estudantes nota A e encaminhá-los para cursos diferenciados. Concomitantemente, alunos que não são nota A, mas B e C, também são encaminhados para essas classes especiais de modo a fazê-la crescer e para que o estado adquira uma boa posição nos rankings nacionais. Segundo Singam, isto ocorre também em grande parte do país.

Como crítico da metodologia adotada por esses rankings nacionais, Singam afirma que uma política educacional não deve se basear nas listas classificatórias popularizadas pela mídia, mas em estudos rigorosos como ocorre no Canadá.

Antes de defenderem o uso indiscriminado de testes, de um sistema de meritocracia entre os professores e o fechamento de escolas de baixa qualidade, os estudiosos da educação deveriam observar o resultado de tal política no país onde ela é mais ardorosamente adotada.

 


Publicado em: 30/06/2010 - 10:00 - Última modificação: 14/01/2011 - 12:01

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